domingo, junho 15, 2003
Indie. Quem é indie? Todos ouvem muito falar sobre os indies, mas será que eles realemnte sabem o que é ser um verdadeiro indie?! Sou eu uma menina indie? E vcs?
Um amigo meu, me passou este texo:
Manifesto Indie
ou (parafraseando o Veríssimo):
Indie que é Indie...
"Como diria o pai de todos os indies, Rob Fleming, "não é o corpo que é importante, é o nível de submissão". E não é que eu esteja me preparando para escrever sobre os pontos mais importantes num relacionamento, é que indie que é indie sempre começa citando Nick Hornby.
Ser indie, da década de noventa para cá, tornou-se uma atitude apostilada, mas como indie que é indie não leva nada que não seja musical a sério, acabou ficando convencionado que ser indie implica não ser indie, ou pelo menos não seguir padrão algum. Como as bandas indies. E disso resultou que ser indie implica ser hipócrita, rejeitando os rótulos e aderindo a eles ao mesmo tempo. Como as bandas indies. Mas tem que ser muito indie para saber o que eu quis dizer com isso. Porque indie que é indie aceita a hipocrisia como um mal necessário à originalidade. Tanto que uma das bandas de rock mais indie dos últimos tempos toca na MTV, nas rádios comerciais e tem contrato com gravadora grande. E indie que é indie tem o Is This It? dos Strokes, porque está nessa pela filosofia, e não pelas aparências ou detalhes técnicos. Pela filosofia e pelo cabelo na cara. Mas indie que é indie não se preocupa com o visual, por isso está sempre com o cabelo por cortar e vestidos como se estivessem em Londres. Ou com o cabelo cortado para ficar com jeito de cabelo por cortar. Porque assim é mais natural: sofrer com o calor por extrapolar em suas vestimentas o clima sorumbático que toma conta de seus corações - e se afogar no próprio suor como se não houvessem alternativas. Sofrendo. Se bem que indie que é indie não sofre, não por motivos externos. Eles são naturalmente desgraçados, e isso é uma grande ajuda, porque é preciso ser muito triste para decifrar as nuances da poesia do Morrissey e do Thom Yorke. Aliás, indie que é indie precisa estar triste para se sentir completo, para que as músicas façam sentido. E indie que é indie prefere morrer de tristeza a tomar Prozac. Mas isso nem sempre é possível, porque há sempre algum ser humano normal e chato querendo estragar a tristeza do indie com perguntas sem respostas, ou cujas respostas estragariam o momento. Isso ou convites para passear no sol, tardes em parques de diversões e cinema pipoca. Os indies também sofrem porque são incompreendidos. Porque as pessoas não entendem que eles são losers por destino, e não por opção. Que suas vidas estão marcadas pela desgraça de... bom, não importa de que seja a desgraça, o caso é que ela está lá enquanto um velho Smiths toca no aparelho de som. Como em Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me pela manhã. E não me venham falar em Beatles, yesterday all my troubles seem so far away etc. Jonh Lennon já era. Indie que é indie reza para o Richard Ashcroft, para o Ian McCulloch. Mas nunca duas vezes a mesma oração. Indie que é indie odeia o conceito de "duas vezes". Indie que é indie tem uma música favorita, talvez uma banda favorita, e essas são as únicas coisas que eles se permitem ouvir mais de duas vezes. De resto há muita coisa no mundo, esse mundo grande e deprimente. Muita coisa para ouvir, muito tempo pra chorar, muita coisa pra sofrer. Não, não vale a pena insistir nas mesmas músicas das mesmas bandas, indie que é indie sempre quer novidades. A menos que se trate daquela velha canção do Lou Reed. Aquela tão intensa, que reflete a desgraça do indie. Lágrimas, muitas lágrimas. O cabelo na cara as disfarça, mas o indie em seu íntimo está sempre em busca daquela pessoa que enxergue seu coração negro e destruído por trás das lágrimas e do cabelo por cortar, por trás dos olhos profundos, por trás mesmo da nova do Death Cab For Cutie ou daquele velho Poèsie Noire - e seus reflexos na solidão do indie. Indie que é indie é sensível, super sensível. Ele enxerga tristeza onde as pessoas normais (ah, as pessoas normais!) só enxergam... nada. As pessoas que não vivem no mundo indie não enxergam nada. Vivem realidades abstratas, sem poesia, sem fossa. São uns privilegiados de merda, indie que é indie não gosta de pagodeiro não porque pagode é ruim, mas porque pagodeiro é feliz. E analisam tudo em termos de influência: o começo do namoro teve claras influências do rock progressivo dos anos setenta, talvez com uma pitada de Velvet Underground ou mesmo Joy Division - dado o caráter sombrio da aproximação -, e então se desenvolveu numa clima de pós-punk, um pouco de Clash, mas sem abandonar as bases: teve muito de Syd and Nancy nos momentos mais doentios, até finalmente terminar numa coisa meio Teenage Fanclub, meio White Stripes, dado o surrealismo e as razões histriônicas que levaram o casal ao rompimento. Indie que é indie não quer namorar firme, não quer ter certeza de nada, não quer saber de tardes de amor numa praia deserta, final feliz, felizes para sempre etc. Indie que é indie sofre de amor mais por obrigação que por opção. E faz isso com estilo. Indie que é indie não quer ter "a música do casal". Ele quer ter a música do "pé na bunda". Não quer lembrar do(a) amado(a) pela música das noites de risos e pipoca debaixo do edredom. Eles querem saber da última música. Eles querem tudo programado, e a tristeza seria maior se não houvesse música do que se não houvesse amor que terminasse em rompimento. Indie que é indie é anti-social mesmo quando está discotequeando na festa mais animada. E para indie que é indie não existe festa animada: a solidão que existe dentro dele afasta qualquer possibilidade de aproximação, integração, participação. Festa de indie é winamp e pub inglês no inverno gelado, pouca luz e muitos nomes desconhecidos. E grandes lojas indies de CDs. Porque melhor que ser cool é ser sad, ter um enorme bittersweet tatuado na testa. Assim mesmo, tudo em inglês, e se possível uma camiseta do Belle and Sebastian, especialmente agora que Belle and Sebastian saiu de moda. Para provar que ouviu primeiro. Indie que é indie ouve primeiro e tem uma memória de elefante - porque são muitos nomes e datas. Mas isso nem faz diferença, porque o mais importante é estar distraído, estar cagando para o mundo, distantes, isolados na própria solidão, curtindo o desmoronamento dos sonhos frustrados pela falta de perspectivas que a obrigação de ser loser traz. Se bem que, como eu já disse, indie que é indie é loser por sina, não por opção.
Se não me engano foi o Lúcio Ribeiro quem disse que o sonho de todo indie é ser abandonado no altar (indie que é indie despreza o Lúcio Ribeiro, apesar de ter o Lúcio Ribeiro como leitura semanal obrigatória e ainda reclamar da merda que é morar num país tropical onde além de ter que aturar o sol não se pode contar nem com um semanário decente - tipo o NME
Eu ficaria feliz com um pé na bunda ao som de Don't Go Away, do Oasis, de preferência num acústico de 1999. "
Este texto foi tirado da página: http://katchoo.kit.net/
3:14 PM |
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